sábado. 04.02.2023

RELATOS/CUENTOS DE VERANO: Na Praia da Apúlia

"Quem seria esta mulher? Em que estaria a pensar? Cansada de cirandar de um lado para outro, retomou o seu lugar. Pegou no livro de há pouco, mas não aguentou mais que cinco minutos de leitura! Levantou‑se de novo. Voltou a deitar‑se, tentando encontrar uma posição confortável. Olhei bem para ela e parecia‑me rivalizar, em agitação, com as ondas marinhas! Dava a impressão que trazia a inquietação do mar estampada nos olhos".
"Olhei bem para ela e parecia me rivalizar, em agitação, com as ondas marinhas!".
"Olhei bem para ela e parecia me rivalizar, em agitação, com as ondas marinhas!".

Decorria o o início do mês de agosto de 2022. Cheguei à praia da Apúlia, às três da tarde. O sol queimava, pondo a areia a escaldar. Bandeira vermelha. Cumprimentei o nadador‑ salvador, meu amigo, mas ele, tão atento ao perigo do mar, que nem me ouviu. Via‑o deveras preocupado com os que arriscavam lançar‑se ao mar com a bravura daquelas ondas! Uns emigrantes jogavam à bola com os filhos. Outras crianças corriam e saltavam, vigiados pelos pais que indolentemente estorricavam ao sol. A mulher dos gelados esganiçava‑se, incitando as crianças a pressionar os pais a comprar:

 – Olhó gelado! Olhó gelado fresquinho! Quem quer matar a sede? Chorai, meninos, chorai! Quem não berra não mama! Olhó  gelado fresquinho! 

 Estendi‑me mesmo junto à água, na esperança de receber maior quantidade de iodo, libertado pelas vagas furiosas. Volvidos uns tempos, senta‑se a meu lado uma elegante senhora. Teria os seus trinta e cinco anos:  bonita, airosa, esbelta, mas olhos magoados e tristes! Fixa pensativamente o mar bravo. Subitamente puxa de um livro e centra‑se na sua leitura. Porém, algo lhe fervilhava por dentro que não conseguiu ler mais que quinze minutos. Levanta-se e aproxima‑se das ondas agitadas. Pensei para comigo que aquela senhora devia estar perturbada, dado que não  sossegava um instante! De facto, depois de contemplar, por momentos, as ondas alterosas e de ter sido salpicada por brancas rajadas de espuma, foi caminhando, meditabunda, até aos rochedos mais próximos e voltou com o mesmo ar pensativo e triste. Repetiu depois o mesmo trajeto, lançando olhares furtivos aos seus pertences, deixados na areia, bem próximos de mim.

 Quem seria esta mulher? Em que estaria a pensar? Cansada de cirandar de um lado para outro, retomou o seu lugar. Pegou no livro de há pouco, mas não aguentou mais que cinco minutos de leitura! Levantou‑se de novo. Voltou a deitar‑se, tentando encontrar uma posição confortável. Olhei bem para ela e parecia‑me rivalizar, em agitação, com as ondas marinhas! Dava a impressão que trazia a inquietação do mar estampada nos olhos.

 Nisto chega um homem de bermudas, camisa aos quadrados, olhar inquieto, que para a seu lado, chamando:

 – Quica, estás aqui? 

Ao ouvir o seu nome, estremeceu, sentando‑se repentinamente como se beliscada pela ponta de uma agulha. Entreolharam‑se ambos, mas sem visíveis manifestações de carinho. Com certa frieza, até! A mulher ficou calada,  expectante, sendo ele a abrir o diálogo. Pareceu‑me que até queria ser carinhoso, mas mantinha‑se formal. Ia falando, medindo as palavras, aparentando certo  constrangimento. Ela, quando respondia, era lacónica remetendo‑se, sempre que possível, ao papel de ouvinte. Não durou a conversa mais que vinte minutos. O homem disse o que tinha a dizer, levantou‑se, sacudiu as bermudas, despediu‑se com ar enfiado, um tanto comprometido, e foi à sua vida.

 Quem seria este homem enigmático? Marido? Namorado? Apenas um conhecido? Que se teria passado entre os dois? Do local onde me encontrava só podia ver os gestos que faziam, ouvir uma palavra ou outra, e nada mais. Dever‑se‑ia ter passado coisa grave, porque depois que o homem partiu, ela ficou ali sentada, imóvel, absorta, mais pensativa que anteriormente! O rosto toldou‑se‑lhe! Subitamente, pousou os cotovelos nos joelhos, deixou descair a cabeça sobre as mãos, e assim permaneceu extática, vazia, ausente, por largo tempo! As lágrimas começaram a escorrer‑lhe pela face, silenciosas e tristes.  

   O bramido do mar e a altura das ondas baixaram um pouco. Uns farrapos de nuvens brancas vieram amenizar a inclemência do sol. E a mulher elegante, chorosa, ali permanecia feita estátua de dor. Passada uma hora levantou‑se, vestiu calmamente as calças brancas e a camisa listrada que pousara na areia, e caminhou vagarosa, pela praia, como o sol para o ocaso!  

O meu amigo nadador‑salvador conhecia‑a e, ao vê‑la naquele estado de abatimento, aproximou‑se para a confortar. Falou com ela demoradamente, e foi por ele que, no dia seguinte, eu fiquei por dentro do drama daquela elegante e chorosa mulher que me tinha chamado a atenção na praia da Apúlia.

 Casada há quinze anos, chamava‑se Maria Francisca e tinha quatro filhos. O casal sempre se dera bem. O marido possuía uma loja de eletrodomésticos que prosperava de dia para dia. Houve até necessidade de contratar uma empregada para ajudar nas vendas e permitir que Maria Francisca ficasse mais disponível para a educação dos filhos. 

Ora a nova empregada começou a insinuar‑se, a meter‑se pelos olhos  do patrão que não soube resistir. A mulher teve conhecimento de encontros extra‑ conjugais, chamou o marido à razão, discutiu com ele, fixando‑lhe decididamente a alternativa: ou ela, ou a amante. Que a despedisse de imediato e acabasse com aquela relação. 

Ele ficou de pensar no assunto. E pensou. Ontem apareceu aqui na praia, para lhe dar uma resposta definitiva. E a resposta foi terrível para a mulher: tinha optado pela amante. Só isto!

 A narração do meu amigo esclareceu‑me toda aquela cena que, no dia anterior, vi desenrolar a meu lado, na praia da Apúlia: um homem infiel; um lar desfeito; quatro filhos abandonados pelo pai; e um sofrimento indizível nos olhos daquela mulher.

                   JOSÉ RIBEIRO DA COSTA

RELATOS/CUENTOS DE VERANO: Na Praia da Apúlia
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